sábado, 25 de abril de 2015

Essas coisas


Ora vejam!
Parabenizara uma autora e nossa prosa caiu num dilema gramatical surreal.
Quis saber como editou, se esquivou. Ok. Resolveu, no seu ego de autor, aconselhar-me a não tratar minha obra por "livrinho" (tinha lhe falado que fizera um livrinho). Mas é um livrinho, pequenino, 33 páginas, magrinho, magrinho.
- Não, esta palavra não pega bem. Diminuiria o meu livro.
Sim, ora vejam! O livro diminuto é o livrinho.
Uma prosa que começa com admiração terminar nesta discussão cheia de amarras nomenclaturais. Ora.
- Ah vais ler Guimarães Rosa! - não disse eu.
Mas não deixou de dizer-me que tinha um livro a 20 reais, revisto & revisado, disponível ainda e que, que sorte, amanhã ia estar na praia fazendo umas leituras, e chamou à mim que nem moro ali e que levaria horas pra lá chegar. Que trabalhou aqui, que trabalhava lá... Ai, que inveja, só que não, fui sentindo. Eu, que nem editara ainda o meu livrinhozinho. Fiquei mudinha, miúda, pensando como chamar esta coisa de papel então que fiz. Pra terminar de forma amigável, dado até por ter descoberto que a dita era amiga de minha mãe, cedo.
- Que tal livreto?

terça-feira, 21 de abril de 2015

Terrear


http://frenesilivros.blogspot.com.br/2013_09_01_archive.html


Amanhã um bailarino vai deixar o palco.

Dará, extremamente concentrado, seu último giro que — não sabe — não se acaba ali:
seu êxtase seguirá girando até o infinito.
Vai ser amanhã em um teatro do mundo.

Sérgio Bernardo

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Sobre isto de ler e não se estar aqui

img.: Alain Laboile
Acontece que o poema me deu o mundo possível que não se vê em realidade.
Aconteceu do poeta morrer mas deixar-me a ler livros e possibilidades intocadas
dessas inócuas:
- como a blusa deitada ao lado por me apertar os seios

- como o peso atirado ao alto ao ar
a metamorfosear-se.
ah! não pode ser minha a canção entoada à fora à toa à força - esta bobagem.
O poema sim devolve-me.
Melíflua. Sim, esta sou eu.

A toada entornada pelo poema escorre
melíflua. Simples por toda vida toca o cerne até dizer o que não dá
pra dizer.
Dizer não diz mas se dá a quem insistir entender.

Quando a superfluidade desvai, ali se voa. A eternidade do cimo dali - tão bom.

Acontece que o poema é meu e dele sou eu e agora é assim.
Minha casinha de gomos de palavras, com capas de roupas soltas, recheios de verbos de mel, lambidas de sol à tarde, orelhas postas de peixe à mesa e coisas demais que não dão pra ver. Vai saber...
Posso morar aí. Não estranhes de não me ver. Flano junto ao poeta amigo meu que já gosta de mim.
Temos um poema em comum, já disse. Ele que escreveu. 

Não só pra mim. Pode ser seu. Vai querer? Eu só peguei pra mim - tão bom.

Flutuo já na claridade desta casa que ganhei pra flanar pelo poema.
É minha. Morei.

Tão bom.

sábado, 28 de março de 2015

A fleuma dos caracóis

(ainda vou escrever)


Eu escrevo à noite.
De dia tenho o hábito irritante de reler o que escrevi
para constatar que há coisas que não suportam sequer
o teste de uma volta do globo.

sexta-feira, 27 de março de 2015

sexta-feira, 13 de março de 2015

Trishna

a sede pela vida manifestada
o desejo de estar profundamente vivo

domingo, 21 de dezembro de 2014

Deambular

v.i. Vaguear ou passear; andar sem rumo certo: deambulava pela praia.
(Etm. do latim: deambulare)

domingo, 16 de novembro de 2014

Calai vós

Tenha tú cuidado em não perturbar, nem numa nota, o silêncio
desta tarde. desta tarde é mestre o silêncio.
Rege maestro a orquestra das faltas de ânsias.

Olhe como é grande. Ouça, nada diz.
Nem uma ideia. Pousa calma a imaginação. 
Deita-se a inteligência. Veja: Virginia Woolf.
Acentue a falta de ruídos, calai vós.

Irrigação

Ter teu
sémen
é
semear-me

as possibilidades existenciais

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O que não foi escrito

Flora Didonet
pra exórdio de conversa
exuma-se de si
e aí te admoesto
a ir ao cume nonde tratem anacoretas

descidos poderemos tratar do posfácio
sem o mostrar a livro algum

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

ave


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Do que quero falar

Venho falar das coisas que penso, que quero dizer mas não digo. Mas penso, e isto já é grande coisa. E penso com a consciência que é maior que o pensamento. Uso esse corpo mas meu espírito é livre e viaja com os ventos. Só porque o céu tem esse azul tão bonito que me encorajo a escrever no ar tais palavras que serão ditas.

Quem fica dizendo que não vota e só fala em eleição não está livre das dicotomias. O super-homem do Nietzsche não exalaria vapores envenenados. No mais só o vapor das brumas ou de alguma boa erva queimando. E que fique dito que falo isso com um cigarro entre dedos. Não estou isenta. Meu voto é sempre em trânsito: achei bom pretexto para viajar. Os carros de som ditando seus dogmas de religião imbuída da política obriga-nos a pôr um Jorge Ben Jor pra cantar. E a dançar.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Botânica

escrevia
poesia
quando uma folha 
por morrer
pela janela
veio à mim

não escrevi mais
uma folha a morrer
é tão melhor
que calo

não sou eu quem dirá o segredo
impresso na nervura de uma folha
mordida voando à decomposição

domingo, 14 de setembro de 2014

Porquanto o homem iça a vela

Vocês aí não sabem a causa dos mares tantos respeitarem estas largas faixas litorâneas, aquelas emergentes ilhas de luminâncias, algum veleiro mais toda a sorte de embarcação, aquele toco que boia, os corpos do naufrágio? 

Não será pois porque cintilam em seus ouvidos de concha côncava toda a míriade de poemas, odes, idílios, compostos e erguidos à tanta imensidão azul. Pois a palavra azul mora abissal mas quebra em branca onda quando encontra a reunião de areia ínfima que de tanta e junta é bege e a respeita desenhando o fronteiriço, margem continental. 

Vento e volta.
Jorge Gonzáles
Pois palavras mil em ordem e ritmo destinados nadam à teu horizonte longínquo, lá onde a vista alcança mas as mãos não. 
Talvez a voz sim. 
Porquanto o homem iça a vela.
Por isto estou cá e tú aí erguido e a palmeira ao alísio dance


... e talvez eis a explicação de tudo de tantos mares respeitarem estas largas faixas litorâneas, aquelas emergentes ilhas de luminâncias, algum veleiro mais toda a sorte da canoa, aquele troço que boia, os copos do naufrágio, a garrafa, o conter das baleias, o caber nas baías, a balela dos piratas, a única verdade audível, o invisível que há

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O astronauta e a abóboda

o teu sorriso aberto
uma folha em branco
ainda mais branca sob a luz
aí reflete a idéia de teus braços
também abertos.

teimo em viver
esse sol sentido cá da terra - tão quentinho
eu cá
pequenino
em meu cantinho 
querendo ver deus ou anjo

mas ainda vejo poucas cores
e muitas borboletas
que dizem diretamente à alma
que quardam, não secretamente
a potência de erguer-se ao solo e sobrevoar
sobre ver
e volver à nascer cá
planeta monolunar dentre as mais belas esferas