alguns minutos pra escrever
rápido o que houve:
afundei num livro em edição portuguesa
lá flui e aflui e fui
à tona de novo
me trouxe por gritos
e pelo olhar harpio ....... a buscar os pastos
sobre cogumelos
sonho com cogumelos
que a textura é boa, sabor bom
o que me fez lembrar de blake e rilke
e adous huxley e no terence mckenna
outro ahaaaraah. lamento não ali estar o
giordano bruno ou até mesmo o dr. mesmer
cheguei. agora são 4:20
hora de thc e de me incomodar com o pagode à fora
(não pode ser minha esta canção entoada à toa, entornada)
anseio melhor
corro ponho allen ginsberg pra dar seu uivo
lembro de onde vim
tudo bem.
sem tintas não pinto o quadro.
com palavras escrevo um e trago.
ah deus quem dera a glossolalia da psilocibina!
amém. oxalá. virá.
segunda-feira, 20 de junho de 2016
glossolalia da psilocibina
sexta-feira, 17 de junho de 2016
os giros
giros! os giros! velha face rochosa, olha à frente!
podem deixar-se de pensar coisas pensadas longamente
pois a beleza nasce da beleza e o valor nasce do valor
e esvai-se todo antigo lineamento
a terra, está manchando-a irracional rio sangrento
...
que importa se na crista um mudo pesadelo se segura
e o corpo sensitivo o manchem sangue e lodo?
que importa? não suspires, e não caia nenhum pranto
foi-se um tempo maior e de maior encanto
e por formas pintadas e por caixas de pintura
em velhas tumbas eu chorei, não vou chorar após
que importa? da caverna ergue-se uma voz
e tudo o que ela sabe é isto: regozija-te de todo!
fazem-se rudes a conduta e a obra, e rude a alma faz-se
que importa? aqueles que preza a rochosa face
os amadores de cavalos e mulheres, tais irão
desenterrar do mármore ou da sepultura espedaçada
ou do escuro entre a doninha fétida e a coruja, desse lado
ou de qualquer negro e opulento nada
o obreiro, o nobre e o santo, e as coisas todas correrão
outra vez neste giro já antiquado.
w. b. yeats
podem deixar-se de pensar coisas pensadas longamente
pois a beleza nasce da beleza e o valor nasce do valor
e esvai-se todo antigo lineamento
a terra, está manchando-a irracional rio sangrento
...
que importa se na crista um mudo pesadelo se segura
e o corpo sensitivo o manchem sangue e lodo?
que importa? não suspires, e não caia nenhum pranto
foi-se um tempo maior e de maior encanto
e por formas pintadas e por caixas de pintura
em velhas tumbas eu chorei, não vou chorar após
que importa? da caverna ergue-se uma voz
e tudo o que ela sabe é isto: regozija-te de todo!
fazem-se rudes a conduta e a obra, e rude a alma faz-se
que importa? aqueles que preza a rochosa face
os amadores de cavalos e mulheres, tais irão
desenterrar do mármore ou da sepultura espedaçada
ou do escuro entre a doninha fétida e a coruja, desse lado
ou de qualquer negro e opulento nada
o obreiro, o nobre e o santo, e as coisas todas correrão
outra vez neste giro já antiquado.
w. b. yeats
segunda-feira, 6 de junho de 2016
amor por antônio
poema para antônio ramos rosa,
o homem que escreveu a frase
estou vivo e escrevo sol
e que morreu aos 88 anos
não adiemos a poesia
que vem do amor
da natureza
por nossos olhos
pele e coração
não deixemos a palavra perfeita que vem do cimo cume
alto indo desvairar ou cair largada, não
num salto colhemo-na de mãos abertas não prostradas
ousaremos-a no ouro
que não ostenta o lar divino onde está antônio em seu caminho de onde nos olha e nos canta em livros-matéria palavras claras do ar estou vivo e escrevo antônio ser de bege areia e das palavras a ouro
alumia teus poetas desgraçados mas com olhos ainda brilhantes de restarem vivos segurando o mastro ou arado do que deve ser falado ousado dizer quem vai crer? poetas, ovnis, vos sou sol vinde à nós criancinhas numa viagem através duma nebulosa estamos vivos e escrevemos sol leva de nós grande abraço para antônio em agradecimentos
o homem que escreveu a frase
estou vivo e escrevo sol
e que morreu aos 88 anos
não adiemos a poesia
que vem do amor
da natureza
por nossos olhos
pele e coração
não deixemos a palavra perfeita que vem do cimo cume
alto indo desvairar ou cair largada, não
num salto colhemo-na de mãos abertas não prostradas
ousaremos-a no ouro
que não ostenta o lar divino onde está antônio em seu caminho de onde nos olha e nos canta em livros-matéria palavras claras do ar estou vivo e escrevo antônio ser de bege areia e das palavras a ouro
alumia teus poetas desgraçados mas com olhos ainda brilhantes de restarem vivos segurando o mastro ou arado do que deve ser falado ousado dizer quem vai crer? poetas, ovnis, vos sou sol vinde à nós criancinhas numa viagem através duma nebulosa estamos vivos e escrevemos sol leva de nós grande abraço para antônio em agradecimentos
domingo, 5 de junho de 2016
sobre o poema
Num poema, se nos perguntamos porque é que tal palavra está em tal sítio, e se há uma resposta, ou o poema não é de primeira ordem, ou o leitor nada compreendeu. Se podemos legitimamente dizer que a palavra está ali para exprimir tal ideia, ou para a ligação gramatical, ou para a rima, ou para uma aliteração, ou para preencher o verso, ou para uma certa coloração, ou mesmo por vários motivos desse género ao mesmo tempo, houve busca de efeito na composição do poema, não houve verdadeira inspiração. Para um poema verdadeiramente belo, a única resposta é que a palavra está ali porque convinha que estivesse. A prova dessa conveniência é que ela está ali e o poema é belo. O poema é belo, quer dizer que o leitor não deseja que seja outro.
Simone Weil
Simone Weil
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Narração
![]() |
| teresa burgos |
ceifa-se a narração fica só
só
só com si e
com sol.
toda narrativa humana é ínfima
como todo o átomo é ínfimo
e o átomo íntimo é só o que vai guardar
toda a sua narrativa, ó indivíduo.
podes me narrar, podemos nos narrarmos
mas sempre será mais que isto.
depois da embriaguez do vinho,
dos cimos de thc, um milhar de baseados,
pílulas, partículas,
livros e outras miríades narrativas
dê-me ó deus aos teus
o conforto desta ânsia de
por uma molécula dmt
ir ter certeza contigo em teu segredo no
óh, mais alto orgasmo estelar!
sexta-feira, 20 de maio de 2016
Enxergo a égua parida
![]() |
| michele cunha |
e tudo acende
o mundo trota cabisbaixo
o homem que era tão alto
corcundou
a vaca quer ir lá mas tá a cerca ali
o párida que andar pro norte mas há fronteira lá
o viandante me recusa o livro pois quer pão
não não não
e sim
enxergo a égua parida
e tudo ascende
terça-feira, 3 de maio de 2016
Flores tais
![]() |
| Raymond Booth |
como tú
que é mais que elas
por dar a elas afeição
sou aquele que aquém
lhe estende um buquê
de flores não colhidas
cujos
caules deixei à terra
as flores no cimo
soam tão agradecidas
se as arrancasses, deus!
morria o amor que é vivo
por ser nosso
delas
da terra inteira, pro nosso olhar
admirar
quinta-feira, 21 de abril de 2016
sexta-feira, 1 de abril de 2016
sábado, 27 de fevereiro de 2016
prestes a plantar
- a brisa ventou antigamentes.
(não sei se esta frase é minha ou de algum poeta falecido.)
ezra pound disse:
- prestem atenção à condução tonal das vogais.
eu disse:
- prestem pra plantar altas tonais florestais.
- ergo leve. quero ir junto.
assim disse zaratustra,
quando a brisa o ventou antigamentes.
(não sei se esta frase é minha ou de algum poeta falecido.)
ezra pound disse:
- prestem atenção à condução tonal das vogais.
eu disse:
- prestem pra plantar altas tonais florestais.
- ergo leve. quero ir junto.
assim disse zaratustra,
quando a brisa o ventou antigamentes.
o poema contínuo
não me surpreende ninguém ter ousado resenhar este livro. quisera ter esta honra mas confesso , não foram poucos os poemas em que meus olhos apenas percorreram as letras sem entender o mínimo sentido do máximo ofertado. com certeza foi dado à Helder o mastro das melhores palavras e dos vínculos entre elas. os poemas colhidos das laranjas, mármores, corolas, humus, das alturas profundas nos é ofertado mas não numa bandeja. há em mim uma angústia por não alcançar esse todo imenso. nunca li algo assim. que desconcerto. em poeta algum. resta deitar vênia a este homem poderoso, detentor deste cedro-pena que esculpiu esse poema contínuo. e almejar, visceralmente, numa releitura futura, alcançar um novo porcento de tudo que Herberto abraça, depois ergue. me esforcei por não abandonar este livro, como se segurasse um raio quente de luz demais. fui mais adiante, vou até o fim, mas há ainda um caminho por onde merecer esta obra. estou parada na porta, esperando ser atendida.
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Poemas de Alejandra Pizarnik
"Oxalá, pudesse viver somente em êxtase, fazendo o corpo do poema como meu próprio corpo, resgatando cada frase com meus dias e minhas semanas, fundindo no poema o meu sopro à medida que cada letra de cada palavra tenha sido sacrificada nas cerimônias do viver".
Caminhos do espelho
E sobretudo olhar com inocência. Como se nada se passasse, o que é certo.
Mas a ti quero olhar-te até estares longe do meu medo, como um pássaro no limite afiado da noite.
Como uma menina de giz cor-de-rosa num muro muito velho subitamente esbatida pela chuva.
Como quando se abre uma flor e revela o coração que não tem.
Todos os gestos do meu corpo e voz para fazer de mim a oferenda, o ramo que o vento abandona no umbral.
Cobre a memória da tua cara com a máscara daquela que serás e afugenta a menina que foste.
A nossa noite dispersou-se com a neblina. É a estação dos alimentos frios.
E a sede, a minha memória é da sede, eu em baixo, no fundo, no poço, bebia, recordo.
Cair como um animal ferido no lugar de hipotéticas revelações.
Como quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca cosida. Pálpebras cosidas. Esqueci-me. Dentro o vento. Tudo fechado e o vento dentro.
Sob o negro sol do silêncio douravam-se as palavras.
Mas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Há alguém aqui que treme. Ainda que diga sol e lua e estrelas refiro-me a coisas que me acontecem. E o que desejava eu? Desejava um silêncio perfeito. Por isso falo.
A noite parece um grito de lobo.
Delícia de perder-se na imagem pressentida. Levantei-me do meu cadáver, fui à procura de quem sou. Peregrina, avancei em direcção àquela que dorme num país ao vento.
A minha queda sem fim na minha queda sem fim onde ninguém me esperava pois ao descobrir quem me esperava outra não vi senão a mim mesma.
Algo caía no silêncio. A minha última palavra foi eu embora me referisse à aurora luminosa.
Flores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água treme cheia de vento.
Deslumbramento do dia, pássaros amarelos na manhã. Uma mão desata as trevas, arrasta a cabeleira da afogada que não cessa de passar pelo espelho. Voltar à memória do corpo, hei-de regressar aos meus ossos de luto, hei-de compreender o que a minha voz diz. "Extração da Pedra da Loucura" (1968), tradução de Luciana Leiderfarb
Caminhos do espelho
E sobretudo olhar com inocência. Como se nada se passasse, o que é certo.
Mas a ti quero olhar-te até estares longe do meu medo, como um pássaro no limite afiado da noite.
Como uma menina de giz cor-de-rosa num muro muito velho subitamente esbatida pela chuva.
Como quando se abre uma flor e revela o coração que não tem.
Todos os gestos do meu corpo e voz para fazer de mim a oferenda, o ramo que o vento abandona no umbral.
Cobre a memória da tua cara com a máscara daquela que serás e afugenta a menina que foste.
A nossa noite dispersou-se com a neblina. É a estação dos alimentos frios.
E a sede, a minha memória é da sede, eu em baixo, no fundo, no poço, bebia, recordo.
Cair como um animal ferido no lugar de hipotéticas revelações.
Como quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca cosida. Pálpebras cosidas. Esqueci-me. Dentro o vento. Tudo fechado e o vento dentro.
Sob o negro sol do silêncio douravam-se as palavras.
Mas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Há alguém aqui que treme. Ainda que diga sol e lua e estrelas refiro-me a coisas que me acontecem. E o que desejava eu? Desejava um silêncio perfeito. Por isso falo.
A noite parece um grito de lobo.
Delícia de perder-se na imagem pressentida. Levantei-me do meu cadáver, fui à procura de quem sou. Peregrina, avancei em direcção àquela que dorme num país ao vento.
A minha queda sem fim na minha queda sem fim onde ninguém me esperava pois ao descobrir quem me esperava outra não vi senão a mim mesma.
Algo caía no silêncio. A minha última palavra foi eu embora me referisse à aurora luminosa.
Flores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água treme cheia de vento.
Deslumbramento do dia, pássaros amarelos na manhã. Uma mão desata as trevas, arrasta a cabeleira da afogada que não cessa de passar pelo espelho. Voltar à memória do corpo, hei-de regressar aos meus ossos de luto, hei-de compreender o que a minha voz diz. "Extração da Pedra da Loucura" (1968), tradução de Luciana Leiderfarb
A crisálida e a clareira
Lera poemas escutara canções apaixonou-se verdadeiramente totalmente integralmente por outro além de si daí todos os poemas todas as canções eram outras.
Foi preciso ouvir tudo de novo. Uma trabalheira.
Foi preciso ouvir tudo de novo. Uma trabalheira.
Perplexa
Como se o que houver puder ser dito
preciso disso
ir ali tomar um ácido
pra lá buscar
a palavra
que explica
Tive de ir
à rua perplexa
procurar a palavra
A noite fresca estala
algo inominável que trazia antigamentes
Caminhei devagar desvirando poças
ignorando sermões
Torcia pra nuvem sair e deixar brilhar
lua até aqui
Voltei com cigarros acessos
Mãos dadas à um fantasma
Colhi o poema
Salva, escrevi.
Se consegui dizer o que queria?
É preciso decifrar
O mistério é maior do que pode ser dito
e todos os poetas já disseram isto.
preciso disso
ir ali tomar um ácido
pra lá buscar
a palavra
que explica
Tive de ir
à rua perplexa
procurar a palavra
A noite fresca estala
algo inominável que trazia antigamentes
Caminhei devagar desvirando poças
ignorando sermões
Torcia pra nuvem sair e deixar brilhar
lua até aqui
Voltei com cigarros acessos
Mãos dadas à um fantasma
Colhi o poema
Salva, escrevi.
Se consegui dizer o que queria?
É preciso decifrar
O mistério é maior do que pode ser dito
e todos os poetas já disseram isto.
Pros que vêm
antónio ramos rosa
maiakovski guimarães
herberto helder allen ginsberg baudelaire
joão cabral mello neto eugenio andrade rubem
alves
murilo mendes
manoel de barros
virginia woolf carlos
drummond de andrade alejandra pizarnik hilda hilst
cecília meireles annas helenas
tão todos mortos por aí
ex, tão mortos, tudo aí
maiakovski guimarães
herberto helder allen ginsberg baudelaire
joão cabral mello neto eugenio andrade rubem
alves
murilo mendes
manoel de barros
virginia woolf carlos
drummond de andrade alejandra pizarnik hilda hilst
cecília meireles annas helenas
tão todos mortos por aí
ex, tão mortos, tudo aí
Se viesses verias quê cheiro têm ambas mãos minhas
se viesses verias
quê cheiro têm
ambas mãos minhas
agora mesmo
são
aroma de
sangue verde
dos ramos
dos girassóis
que extirpei
pois teimavam ocupar teu lugar à cama
quê cheiro têm
ambas mãos minhas
agora mesmo
são
aroma de
sangue verde
dos ramos
dos girassóis
que extirpei
pois teimavam ocupar teu lugar à cama
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