sábado, 28 de março de 2015

A fleuma dos caracóis

(ainda vou escrever)


Eu escrevo à noite.
De dia tenho o hábito irritante de reler o que escrevi
para constatar que há coisas que não suportam sequer
o teste de uma volta do globo.

sexta-feira, 27 de março de 2015

sexta-feira, 13 de março de 2015

Trishna

a sede pela vida manifestada
o desejo de estar profundamente vivo

domingo, 21 de dezembro de 2014

Deambular

v.i. Vaguear ou passear; andar sem rumo certo: deambulava pela praia.
(Etm. do latim: deambulare)

domingo, 16 de novembro de 2014

Calai vós

Tenha tú cuidado em não perturbar, nem numa nota, o silêncio
desta tarde. desta tarde é mestre o silêncio.
Rege maestro a orquestra das faltas de ânsias.

Olhe como é grande. Ouça, nada diz.
Nem uma ideia. Pousa calma a imaginação. 
Deita-se a inteligência. Veja: Virginia Woolf.
Acentue a falta de ruídos, calai vós.

Irrigação

Ter teu
sémen
é
semear-me

as possibilidades existenciais

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O que não foi escrito

Flora Didonet
pra exórdio de conversa
exuma-se de si
e aí te admoesto
a ir ao cume nonde tratem anacoretas

descidos poderemos tratar do posfácio
sem o mostrar a livro algum

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

ave


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Do que quero falar

Venho falar das coisas que penso, que quero dizer mas não digo. Mas penso, e isto já é grande coisa. E penso com a consciência que é maior que o pensamento. Uso esse corpo mas meu espírito é livre e viaja com os ventos. Só porque o céu tem esse azul tão bonito que me encorajo a escrever no ar tais palavras que serão ditas.

Quem fica dizendo que não vota e só fala em eleição não está livre das dicotomias. O super-homem do Nietzsche não exalaria vapores envenenados. No mais só o vapor das brumas ou de alguma boa erva queimando. E que fique dito que falo isso com um cigarro entre dedos. Não estou isenta. Meu voto é sempre em trânsito: achei bom pretexto para viajar. Os carros de som ditando seus dogmas de religião imbuída da política obriga-nos a pôr um Jorge Ben Jor pra cantar. E a dançar.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Botânica

escrevia
poesia
quando uma folha 
por morrer
pela janela
veio à mim

não escrevi mais
uma folha a morrer
é tão melhor
que calo

não sou eu quem dirá o segredo
impresso na nervura de uma folha
mordida voando à decomposição

domingo, 14 de setembro de 2014

Porquanto o homem iça a vela

Vocês aí não sabem a causa dos mares tantos respeitarem estas largas faixas litorâneas, aquelas emergentes ilhas de luminâncias, algum veleiro mais toda a sorte de embarcação, aquele toco que boia, os corpos do naufrágio? 

Não será pois porque cintilam em seus ouvidos de concha côncava toda a míriade de poemas, odes, idílios, compostos e erguidos à tanta imensidão azul. Pois a palavra azul mora abissal mas quebra em branca onda quando encontra a reunião de areia ínfima que de tanta e junta é bege e a respeita desenhando o fronteiriço, margem continental. 

Vento e volta.
Jorge Gonzáles
Pois palavras mil em ordem e ritmo destinados nadam à teu horizonte longínquo, lá onde a vista alcança mas as mãos não. 
Talvez a voz sim. 
Porquanto o homem iça a vela.
Por isto estou cá e tú aí erguido e a palmeira ao alísio dance


... e talvez eis a explicação de tudo de tantos mares respeitarem estas largas faixas litorâneas, aquelas emergentes ilhas de luminâncias, algum veleiro mais toda a sorte da canoa, aquele troço que boia, os copos do naufrágio, a garrafa, o conter das baleias, o caber nas baías, a balela dos piratas, a única verdade audível, o invisível que há

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O astronauta e a abóboda

o teu sorriso aberto
uma folha em branco
ainda mais branca sob a luz
aí reflete a idéia de teus braços
também abertos.

teimo em viver
esse sol sentido cá da terra - tão quentinho
eu cá
pequenino
em meu cantinho 
querendo ver deus ou anjo

mas ainda vejo poucas cores
e muitas borboletas
que dizem diretamente à alma
que quardam, não secretamente
a potência de erguer-se ao solo e sobrevoar
sobre ver
e volver à nascer cá
planeta monolunar dentre as mais belas esferas

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Uma idéia toda amarela

Num quarto de ideias de teto alto
Tem-se ao centro deste uma luminária 
Cujo amarelo da lâmpada faz parecer
Um sol pleno à meia noite
Em seu ar, éter
e sabe-se mais o quê
Um relógio batendo tempo igual
ao meu coração batendo dentro
do mundo o eterno momento
Nesta fusão de agora
nesse quarto em questão
que na noite que sinto 
guardei o sono.

O sonho extrapola lá fora. Por hora a vigília me tem atenta 
ao topo das ideias que permeiam este recinto 
até ao alto teto e deste afora
céu miríade de estrelas sobre a lâmpada - um teorema. 
Por ela tentei o poema. 
De seus raios partiram toda a senda de uma ideia tosca toda amarela.

De unhas vermelhas escrevo porque quis que o belo tivesse vez. 
Quis que o verso fizesse sentido. Quero ter este quarto como a um vestido. 
Cheiro a colcha, é quase jasmim. Que concha parece o ouvido! À ti deito-me.
Sim.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Safira

PICASSO
Um dia vais ver
dar a volta e volver fora de mim.
E então vais voejar os séculos
estudar os mistérios nas criptas cardio
e demais não nos podem contar
Devolver-se-há à mim revolto
parado erguido de pé ante a vida
revolvido, resolvido
pé diante e a trilha
a destecer o tédio em deslumbre
a relaxar os músculos todos
descansar as fibras
de face nova serei devolvida
resolvida, dissolvida
farei honras à viagem
que fiz sem arrancar nem uma única flor

digo que plantei uma árvore e não foi pouco
que dei de ir volátil e voltei
safira

Reflexão sobre o reflexo na poça

o céu nunca é o mesmo
nem nós haveríamos de sê-lo
acordei perdido de quem ontem fui
caminho por pés e pernas
bambas, firmes, distraídas
desviadas dos jardins espontâneos
que surgem não aleatórios, por aí
essas coisinhas pequeninas de esperança
focalizam minha visão, pura e criança
na luz majestosa que se dá na vala negra
aí perdi o poema que tecia
ali no brilho do sol na vala negra
que disse muito mais que o que tento
eu antena espectadora do movimento
de um ser muito maior que eu, por onde venho
aonde hei de volver e que insiste em mostrar sinais de onde sou
eu, terra visor de paisagens eternas que se mudam e a mim
eu, terra, pouso de sonhos esmaecidos e vivos ainda assim