terça-feira, 4 de agosto de 2015

Secreta

Gisele Fagundes
todos os dias às 16:33 um beija-flor vem aqui e este é meu segredo
já não vem
ocorre uma mariposita vir me lamber o suor
antes a glândula secreta sal

(ela acha mel)
agora é noite, anotarei novos momentos

ainda não veio uma vaca me roçar
estaria feliz se viesse

também não estou triste
de manhã acho que olhei sargaços

um cachorro cismou comigo
o vento quis me arrancar cabelos

agora é quase tarde
há pouco ele voltou
15:33 o beija-flor esteve aqui

guarde este segredo
algo vai acontecer

sábado, 18 de julho de 2015

Fez-se do mar


sei de ti
uma
única
palavra - que não digo

sei de mim
um
calhamaço - não escrevo

nada valem - tão efêmero é ser

dois somos silêncios
um cardaço sine qua non
sem sumo, nem título
restos de terra e mar

sei do mundo a circunferência
que não vejo - desenho
(deus, não vejo! pudera?)

sei sobre tudo nada
então não conte

fiquemos quietos reinantes parados parentes inertes e somos mais
imenso


você título talvez
eu conteúdo
ninguém vai ler
contudo
acontecemos
e temos uma capa bonita
como a rosa - 
vermelha 
como a rosa que ilustra a capa vermelha do livro do António Ramos Rosa

como as unhas vermelhas que pintei pra caso te ver, ou te ler, ou te escrever,
pra caso te ser,
não sei.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Não sei fazer arco íris

Não sei fazer arco íris e este momento me é engolido como a um espinho que fincasse agudo, demasiado fundo, na garganta. Nem desce, para que digira, nem cuspo como se faz se fosse um gosto ruim. Como fazer para que saia? Alimento ilusão de que se esvaia se venho tratar contigo disto.

Se sentes frio um casaco ou abraço dão alívio. Se tens fomes, comes e eis que estais bem. Nada tratará isto que sinto ao engolir a incapacidade. Penso que a surdez fosse bom e agradeço o tampão de cera. Sinto que morrer não soluciona e nascer deu tanto trabalho. Preferia um engasgo que ao soco nas costas resolvesse. Mas não, não.


Não sei que fazer com as mãos. Nem que mil crianças me dessem as suas e fizessem festa ao olhar, levantaria-o. Solo, terra, rocha são os que vejo. Nem que teus raios de sol, óh deus qualquer, num verve descessem para salvarem-me, não daria à ti um só mistério meu, já que não me deu a ternura de fazer arco íris.


O fato que me veste cinza, que me fez engolir é momentâneo e é deste traje que trato. Não me dispo para que me salve. Nem me visto pra que aplauda. Quero só ser pequena ao ponto do tamanho do grão cósmico. Caber
exato em tua palma de mão. Se me apertas muito me abro. Queria ser ar, tão alto ar que nem servisse ao teu respiro. Vou querer volver à deus e deixar de ser eu, não deu. Só porque o céu tem esse azul assim bonito que me encorajo a escrever no ar daqui tais palavras. Não sei fazer arco-íris.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

e sei que piso um astro

Luis Ricardo Falero
como tudo é real como tudo respira
porque a terra é única e ninguém a engana
áspera e dura suave e sempre nova
por ela levanto este archote de resina ou de sal em chamas
porque nela renasço como tudo renasce e sou uma árvore
com o pulso de argila
ou uma onda vibrante do seu peito profundo
o clamor monótono de suas entranhas vermelhas
...
eu sou o homem renascido que vê a rosa viva do mundo
e sei que piso um astro e estou no círculo da metamorfose ardente
tudo é possível porque sou o fogo amante
...
ela é um barco ou animal de terra e sangue
é o músculo do mar em pleno estio
é o desejo do oásis o oásis do desejo
...
o seu andar de adolescente marinha desenha sobre a areia o voo de um pássaro

António Ramos Rosa

terça-feira, 19 de maio de 2015

Choque, ruína e síncope.

Por favor não editem meus livros.

Não os quero corrigidos. 
img.: Victor Pacini
Não os quero prensados, 
costurados, constrangidos, grampeados. 
No fundo nem os quero comprados 
- mas te faço e envio um a 14 reais.

Não os quero presos nas prateleiras ou encalhados no fundo das caixas que fedem papelão. Não os quero presos nas fendas do orgulho ou da breve situação.

Não quero que a vizinha me veja na televisão, nunca, não. 
Deixa-me ser esta incógnita que leva os filhos à praça à lamberem sorvetes de frutas quando é verão e que no fim do mês tem de ir ao supermercado. 

Por favor sr. editor esqueça hoje mesmo o email que mandei ontem. Apertei "enviar" mas era gatilho. Não poderei dizer de mim que sou bonita ou eu mesma ou que fui esperta e sorrir sem ser a vez. Não sei reagir à elogios e à qualquer tipo de crítica inundar-me-ão mil lágrimas e o colapso. Ou síncope, é certo.

Não quero autografar montanhas de pilhas de livros rigorosamente iguais para uma fila dos que possam estar apenas atrás de algo expresso. Dói-me o pulso pensar as assinaturas corridas e é certo que me servirão água engarrafada plasticamente. Tudo meu precisa de ar tipo atmosférico. O que sai de mim é natural: estou à beira da cachoeira escambando livros por pedras solares ou peixes frescos.

sábado, 9 de maio de 2015

Inerme

Adjetivo
Que não tem armas ou meios de defesa.


Botânica
Que não tem acúleos ou espinhos.


Zoologia
Diz-se do animal sem ferrão, bicos, pontas: tênia inerme.

Da arte de escrever do cume calmo

Escrevem através do conhecimento pessoal, e portanto empregam suas mentes concretas na tarefa de estabelecer este conhecimento em termos que revelarão a verdade àqueles que têm olhos para ver, e contudo ocultarão aquilo que for perigoso, do curiosos e do cego. Esta é uma tarefa difícil de cumprir, porque a mente concreta expressa o abstrato de maneira muito inadequada e, na tarefa de incorporar a verdade às palavras, muito do verdadeiro significado se perde.

Alice Bailey

Para dentro e para todos

tem uma parte - por dentro é azul
não é vista ou tocada nem sentida
mas é a que mais tem, existe e é.

pode ser telegrafada
- não por telégrafo!

para ir tem que rasgar o céu
ou cair.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Colóquio

- Borges, 
eu aquém também 
sempre acho que o 
paraíso seja algum tipo de biblioteca.

sábado, 25 de abril de 2015

Esse livro


Essas coisas


Ora vejam!
Parabenizara uma autora e nossa prosa caiu num dilema gramatical surreal.
Quis saber como editou, se esquivou. Ok. Resolveu, no seu ego de autor, aconselhar-me a não tratar minha obra por "livrinho" (tinha lhe falado que fizera um livrinho). Mas é um livrinho, pequenino, 33 páginas, magrinho, magrinho.
- Não, esta palavra não pega bem. Diminuiria o meu livro.
Sim, ora vejam! O livro diminuto é o livrinho.
Uma prosa que começa com admiração terminar nesta discussão cheia de amarras nomenclaturais. Ora.
- Ah vais ler Guimarães Rosa! - não disse eu.
Mas não deixou de dizer-me que tinha um livro a 20 reais, revisto & revisado, disponível ainda e que, que sorte, amanhã ia estar na praia fazendo umas leituras, e chamou à mim que nem moro ali e que levaria horas pra lá chegar. Que trabalhou aqui, que trabalhava lá... Ai, que inveja, só que não, fui sentindo. Eu, que nem editara ainda o meu livrinhozinho. Fiquei mudinha, miúda, pensando como chamar esta coisa de papel então que fiz. Pra terminar de forma amigável, dado até por ter descoberto que a dita era amiga de minha mãe, cedo.
- Que tal livreto?

terça-feira, 21 de abril de 2015

Terrear


http://frenesilivros.blogspot.com.br/2013_09_01_archive.html


Amanhã um bailarino vai deixar o palco.

Dará, extremamente concentrado, seu último giro que — não sabe — não se acaba ali:
seu êxtase seguirá girando até o infinito.
Vai ser amanhã em um teatro do mundo.

Sérgio Bernardo

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Sobre isto de ler e não se estar aqui

img.: Alain Laboile
Acontece que o poema me deu o mundo possível que não se vê em realidade.
Aconteceu do poeta morrer mas deixar-me a ler livros e possibilidades intocadas
dessas inócuas:
- como a blusa deitada ao lado por me apertar os seios

- como o peso atirado ao alto ao ar
a metamorfosear-se.
ah! não pode ser minha a canção entoada à fora à toa à força - esta bobagem.
O poema sim devolve-me.
Melíflua. Sim, esta sou eu.

A toada entornada pelo poema escorre
melíflua. Simples por toda vida toca o cerne até dizer o que não dá
pra dizer.
Dizer não diz mas se dá a quem insistir entender.

Quando a superfluidade desvai, ali se voa. A eternidade do cimo dali - tão bom.

Acontece que o poema é meu e dele sou eu e agora é assim.
Minha casinha de gomos de palavras, com capas de roupas soltas, recheios de verbos de mel, lambidas de sol à tarde, orelhas postas de peixe à mesa e coisas demais que não dão pra ver. Vai saber...
Posso morar aí. Não estranhes de não me ver. Flano junto ao poeta amigo meu que já gosta de mim.
Temos um poema em comum, já disse. Ele que escreveu. 

Não só pra mim. Pode ser seu. Vai querer? Eu só peguei pra mim - tão bom.

Flutuo já na claridade desta casa que ganhei pra flanar pelo poema.
É minha. Morei.

Tão bom.

sábado, 28 de março de 2015

A fleuma dos caracóis

(ainda vou escrever)


Eu escrevo à noite.
De dia tenho o hábito irritante de reler o que escrevi
para constatar que há coisas que não suportam sequer
o teste de uma volta do globo.