segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Trecho do livro: Distrair ou Potencializar?

Velha veio num dia disfarçado de chuva. Veio ventando-chuvando-raiando, caiu.
No mundo dos homens que queriam demasiado humano. Dos homens da caverna da época que não haviam mais cavernas pois revestiram-nas todas de concreto. Muitos vestiam atraso. Muitos estavam eretos à um tipo ilusório de  poder. Muitos científicamente arreganhados para a penetração da verdade. Verdade é coisa velha. Verdade ninguém suporta ver. Verdade não dá pra pegar, só pra ser atravessado por ela, feito brisa. Só pode ser brisa: ela. Por isso correm para alcançá-la, enquanto ela não é matéria. Por isso lutam por um verbo dela, enquanto ela não é escrita, está - quiçá - de porte da poesia. Por isso comer-lhe do prato até lamber-lhe as beiras. Verdade não é digerível ou dirigível. Não se come, não se lambe, não se esconde. Nem dá pra ver, pinçar, sentir, pensar. Antes seria preciso um excretar resquícios de consciência. Anuncio-lhes a primavera e lhes mando bons amigos. Reuni-vos todos mais três para que chovam flores.

sábado, 18 de agosto de 2012

Ode ao barro

Fresca pluma. Novo potro.
Rebenta natureza.
Olhos abismados por tudo que nasce e merece.
Multiplica visão a vida que come morte.
Alimento pro dia que bebe a noite e envelhece começo.
À tarde pisei barro e cresci.

Não se embrutece quem tece alegria.

Como admitir as depressivas se às horas já coube poesia?

Manoel de Barros Remédio - menos farmácia, mais livraria.
O eterno não cavalga relógios. O horizonte não cabe em pixels, mas nas retículas... 

e nas
reticências.

"Me conformei em reservar alguma coisa...
É recomendável não descobrir todos os segredos”.
Capinejar

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Do infinito ao infinitesimal

Bem te vi no fio da terra em frente à nuvem do céu.
Não me venha com sua britadeira que meu cérebro sintoniza poesis.
Pode me dar teus estilhaços que desenho mosaico pra colar num vaso e te dar.
Aceite um cravo. O céu é azul sem fim. Planto grama pros teus pés.
Passar... por aí.

Vamos passear. Não acorde distorcido. Vá requebrar.
Pandeiro é bonito. Chega o lamentar, o resistir ou enfrentar.
Combater armas com armas.
Te digo antes: silêncio conta verdade quando venta. E ela não é feito palavras.
E se é, feita, vento leva e varre que a verdade é leve e breve e é quase fugaz.

Se tua rádio tocar na minha banda, costuro palavras doces no coração blindado às dissonâncias. Pois aqui nesta casa brindo sintonias e bailo melhorias.


Se tua política quer vender ou me comprar, fundo as leis universais dos quintais, aqui.
Poderosas e eternas como tudo que foi e que melhor há de vir.
Se o teu senhor te manda, o meu permite. Tudo me é permitido: sou responsável pelo meu e pelo seu sorriso. O que pode o nosso?

Há em mim tudo o que busco fora. Hummmm. Me aninhei. Me esquentei de sol. To feliz. Silente. Agora compartilho. Vez ou outra grito um: olá!

Vez ou outra vem uma paz. Do infinito ao infinitesimal. Todos temos uma dívida ancestral. Um código a desvendar. Algo pra encontrar. Um afazer alquímico e muito mistério.

Abdico o foco da personalidade. Ninguém curtiu meu post. Nenhum compartilhar.
Se for serena e sorona já basta. Se seguir fio que ascenda e toque uma estrela já funciona.

Do quintal colho as frases orvalhadas. Enterro o silêncio que brota em insistentes idéias solares. Prestígio de tê-lo sol na cara, luz quente, face a face. Olhos serrados vêem dentro. Cor vermelho e mais e mais.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Desejo duro de pedra

Me concebi um desejo duro de pedra: ser dessas daninhas que se dão no vão entre um e outro bloco, cimento de rua. Uma dessas qualquer que nada desejam e aos passos espreitam. Surdas às bobagens, sensitivas aos passos, invisíveis no caminho. Já fui dessas e de pé me encontro. Mas não me dou com os meus. Meu deus, onde caibo? Pudera ser num vaso, mas sou alta e feita de pele. E pele quer toque. E o espírito me quer leve. E eu quero que alguém me leve, pois peso. Me carregue, me leia, me componha que sou breve e vou passar. Careço deixar rastro, dizer que amo. Deixar uma carta, uma bandeira, um terreno arado.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Palavra longe que traz perto








Coisa de quem tem
Posse do ausente 

- Que escapuliu do tempo e se perdeu no espaço.

Invento presença e te acho. Te apanho, te afago e te largo.
Só pra ver se volta... se ainda te lembras do caminho.

É arriscado, por certo. Se demoras te risco. Posso.
Posso tua presença carne (ou) possuo tua ausência memória.

Qual das duas melhora?

Só sou o grande: tú e eu.
Com tú sou o meio: que há entre

E?

(Silêncio tá calado e de som só chuva e pio de anu). Dia nulo que não aponta.

Sem pontaria permaneço. Espero, esmero, tempero, sincero. Lapido questão. 

(essa...)

Frase sem resposta. Adivinho o som que vem e a volta. Brincadeira e passatempo.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Um passarinho me canta sua liberdade e ofende

Os muros que adentrei e habito são constituídos de pensamentos condensados.
As estradas que percorri correm soltas das minhas pernas.
Acho-me prisioneira da casa que arrumei. Perfumada, limpa e vazia. Como eu.
Quando voltarei às andanças e aos sorrisos não sei. Estou de mal com esta condição.
E sem ferramenta pra demolição.

Um passarinho me canta sua liberdade e me ofende. Quem me atende?

Estou há dias a chamar. Atenta a quem passa. Tenho algo a oferecer. Quem vai receber?

Angústia sim. Aspiro fumaça. Sono sinto. Motores enferrujados. Olhos embaçados.

Emergência! Cansei. Quando você chegar me acorda.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Ponto da massa

Abraço com as pernas o ponto final e deste ascendo o fio peculiar do futuro. Esperança cá tripudia do que foi: nem lembro mais. Parto do ponto final e com ele desenho a forma futura. Fundo estrutura. Miúda, cresce devagar. Vago e acho e assumo lugar. Estou ereta pro que há, de melhor. Depositório de ascenções sou. Nasci do ponto, finalmente. Já não busco, encontro. Um novo multiplica células em mim. Envolve-me em seu cordão que são linhas de traços curvos. Na próxima curva esbarro com o que há de melhor. Conta verdades o silêncio. O ponto final é começo da partitura. Sou párida-depositária das canções que suscitarão do que há de maior, no som. Ausência de é começo, preparo. Ponto da massa.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Fazer com palavras o que deus faz com cristais

















Vou andando a pé
que a fé se acostuma a voar.


Você vai dar crença que
O pé na fé costuma bailar.

É necessário devolver a fé aos ares.
Ela volta a correr por você, acrescida.
Traz outros sons. Amplifica audição.

Um banho de lua vazia e é confortável a capa-carcaça que se investe de sabedoria.

Remédio para rendição é
0 gota de pré-ocupação 

(a ação repousa nisso)
Fluir livre respiração (que é da terra por ela)
Suspende a ação, pára e alisa a ação.
Pode ser em qualquer posição.
Não importa o que se tem no bucho. Sem gazes é melhor :-)
Importa atentar palpitação do pulsar do ir do fluir e ir...


O lugar
(Tá tão longe que é íntimo.
Tá tão perto que escapa.
Tá tão sóbrio que tremula.)

É saúde no único que há.

Harmonia que é conceção:
Meio pé no passado, uma mão extensa ao futuro.
Nenhum dó no passado, nenhuma ilusão, extenso presente. 

Aqui e dentro e lá bem longe onde
Há tudo 
e que engloba o que existe e que sempre gira dentro de uma hemoglobina e aos redores.

Passeio energético por onde e onde quer que nós estejamos.


Vêm de cima e dos demais lados. Espiritual materializado é amor que te envio pronde quer que você esteja. É meu porque te dei. Recebi. Dá sentido, têm brilho e vêm por determinação. Depois do amor o mar é imenso e o céu longínguo.

Sondo outra frequência. Um fio me sendo aqui e eu, ainda senda, que quero tão longo que alcanço estrelas. Giro e circundo palavras que se jogam em teclas (ou) jorram em papéis -  que eram folhas e que viraram recipiente de reais. Talvez ajude aos demais.


Toma que é teu. 
Tomara seja novo.
Tomara, há alegria.
Sou ser de torcida. Há melhor.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Chão é céu e é meu e seu.

Chão é céu. E é meu e seu.
(Caetano Veloso)
Silêncio é simples mente ter mente livre.
É simples ser livre. Não mentes.

Ter simples a mente. Simplesmente.
Ser livre a mente. Livremente.
Ás estreitas bobagens: silêncio.
Maior é o silêncio depois de antes barulho.
Alto, estrondo. O bum e o eco do bum. Depois nada ou o som.
Nadica se fala. Cala. Olha. Caracoles.
Mais contraste!
A luz não deixa, tamanha!
Logotipo solar.
Primeiro dou-te palavras, roupas minhas. Pra.
Depois dar-lhe nudez silente.
Nem uma palavra.
Precisei antes e pra isso escrever um livro.
Que foi um derramar desconexas palavras que cirandaram.
Era preciso. Hoje é inútil. Pode estancá-lo na prateleira.
Que o que pulsa tá aqui e não se escreve. Mas se dá.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Era paz o acorde cosmonauta

Uma Senhora Mangueira e o Anu
Lua cheia em capricórnio.
Lua vazia por quase todo o dia.
Bicicleta convidativa.
Rodagem pra ver o que realmente há
por essas bandas:
Nenhuma briga, nada de plástico. Poluição?
No sonoro só silêncio, mugido, cânticos.
No terreno só barro, terra e areia.
Haviam pedras, relinchos.
Algum humano, muitos cavalos. Foi o que vi.
Nessas bandas. Nada extinto. Nada escasso.
Tinha anu, pica-pau, gaviões.
Coruja vi não, mas há.
Muitos ruminantes me viram.
Nada vi do que passou na TV.
Vi distinto do que diziam os vizinhos.
Nenhum grito. Tanta cerca.
Não sei o nome dessa banda de cá.
Uma placa dizia: Saudade. Era planeta terra.
Isso sei. Bebi na fonte.
Tinha pouca gente aqui. Uma acolá. Dei aceno, recebi sorriso.
Não tinha nada: tinha o só, a bicicleta, garrafa d´água, câmera GE e o aceno do planeta em mim.
Tava feita de azul e de verde. De uma flor aqui, doutra ali.
O lago era o olho do chão: via céu. A árvore plantada balança.
Uma sombra convida amor. Vento cantava.
Por aqui ninguém corre. Urubus quase dão bom dia.
Era terra, era dia. Lua ainda vinha.
Era o todo possível. Tudo concedido estava. Àquela hora, desde sempre, ainda agora.
Agorinha mesmo até.
Tem mesmo alguém querendo me enganar. Não é feito de real. Matéria monstro.
Mas, escuta só: foi só bandear por aí pra modo de despertar e de rememorar que tudo está perfeito, no seu lugar. Aves não disputam o espaço ar. Na banda de cá toca o que há de maior. 
Acorde!
Há ruído aí? Sonoro poluído? Disputa territorial? Índios afiando setas? Desconheço...
Acordei!
Tô acordada pro acorde cosmonauta composto em paz, de aves e muita cor em escala. Subo escada no horizonte verde abaixo, pra imensidão azul acima. Pelas trilhas de pó do planeta terra que não passa nessa tela que te ligas. De banda passa a boiada. Além e alheia vai passarada. Alhures.

Vou.
Vôo.
Vês?
Vens.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Buscas na fria plenitude o que tens de sobra no teu ninho

Escrever. De repente
rompe-se a solidão.
Quem vem?
Quem me acompanha?
Fique aqui comigo
você que manda e se manda...

Um galo cantou no escuro
um eco tecendo
o balão da madrugada.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Não tenho medo, tenho amor

Acabo de ver o filme
Belo Monte, anúncio de uma guerra
.


Choro muitíssimo, porque sou mulher, feita 90% do mesmo material que os rios e por isso desaguo antes de guerrear. Acho absurdo que enquanto me preocupo em salvar uma abelha que se afoga em meu copo de suco, dezenas de sei lá por qual nome chamar se ocupam com a extinção da vida e sua consequente perpetuação de sofrimentos.

Desculpem, detesto a ira e acredito mesmo que lutar contra um mostro dá-me grande chance de grande mostro me tornar. Por isso antes de minha seta afiar rogo, rezo, grito meu mais alto berro, ajoelho, olho pro céu, peço esclarecimento. Socorro! Certeza que o divino precisa interceder. E que a gente vai merecer.

Não dá mais pra ficar repetindo caso antigo, não vês as ruínas de tudo que já faliu? Estou imensamente chateada. Não sei o que faço. Lavar a louça ficou ridículo. Só choro depois disso. É que dentro de mim passa um rio e toda a liberdade que nada nele. Neles. Seja Xingu ou São Francisco. São minhas veias. Somos todos isto. Mas meu dinheiro não é esse, não como peixe podre nem quero a sua energia suja. Já fui pescador, porra! Já fui índio, merda! Não aguento mais guerrear. Que não seja preciso. Se for... Não tenho medo, tenho amor.

Fotos de Renata Marangoni


Parem 
Por favor 
Por deus
Por nós
Por tudo
Por vocês

Que assim seja. Assim será.

Oxalá amém.

Para ver o filme:
www.belomonteofilme.org/portal/br


terça-feira, 5 de junho de 2012

Histórias de vênus, vacas e formigas: pra boi.

Histórias de vênus, vacas e formigas ouvi dizer:

À deus peço nada que tudo tá já concebido.
A vaca por nós passou, na estrada que corta a floresta dos macacos. Passa vida, passa ela, rebolaaaaando sua paridez eliptical de um bezerro, numa desenvoltura corporal de desventura celestial, subindo a ladeira que é chão que levanta. Prosseguir é algo que sou e rememoro. Reminiscênte confiança, mesmo que (ainda) um olho meu humano desconfie.
(Re)Torno à vaca, à confiança.
Do sapo escuto sapiência.
Do rio das bananeiras vejo um fluir de (v) ir que sorri, assim.


Sabemos que para que uma formiga vire algo maior deve deixar de ser formiga. Pisei  numa, ao acaso.

Aos olhos infantis freiras são meras fantasias de alguém que vai ser muito feliz dançando o carvaval. Crianças já nascem esperança. Assim vejamos, sempre. Sempre vacas livres, transeuntes das estradas que servem de travessuras aos macacos e travessias para o caminhar. Detesto a palavra fronteira. Por hoje vi um homem morto, ontem
*
Vi a vaca e
A vaca viu-me.
Vi detalhadamente a vaca. 
Do rabo, às pintas, olho no olho e a lingua...
Não sei o que a vaca viu de mim. 
Vaca não fala, mas tosse sim!
Foi sem pensar que senti vontade de respirar vacamente, relax. Abri o (c)por(a)t(ç)ão e adentrei seu espaço sagrado de grande animal (podia ser uma sombra qualquer, mas nesse momento era árvore de jamelão, pintura roxa para a língua). À vontade, em distraído eStar, encostei minha face em sua barriga de manchas num respirante vem-vai. Ali repousei. 
Nem sei por quanto tempo. Nem era eu. 
Era vento. Era quente. Era feito do mesmo material que a gente.

Era a paz o acorde cosmonauta.

* Depois disso:

Pensar no que estou fazendo fica impossível quando todo o desejo de ação está destinado a seguir o rastro do sorriso que ficou. As marcas que têm o canto dos olhos que melhoraram meu ver. Ser eu, agora, é ser você, separado e associado. Ligado.

A palavra Eu modificada permanece original** (enquanto) eu estou ligado à você*** que é quando eu

Penso no que estou fazendo, desejo o que se estou fazendo e realmente faço o que está se fazendo. Presença e presente! Traga já a tua ausência pra perto da minha essência. Só assim terá existência: o amor.

Pensar no que estou fazendo só é possível quando todo o desejo de ação está desocupado de seguir o rastro dos sorrisos que dera. Ficou a marca no canto dos olhos que melhoraram os meus. Ser eu, agora, é ser você separado. Palavra eu modificada, original, ligada à palavra você enquanto eu pensar que sim. Sonho vou sempre ser, projeto. Lá vou eu atrás de você com muito amor na frente e luz no teto. Com o 

Coração atrevido, as pernas de curioso
Os olhos de bem-te-vi e o ouvido de boi manhoso


No caminho vou convivendo com adversidades. 
Com as vacas vou cruzando e delas vou melhor corporificando a associação integral. 

A runa sorteada foi Gebo (uma dádiva). Ainda vou me beliscar pra crer e ver.

Afinal, tudo pode acontecer. 
Deixa a vida acontecer.
O mundo não precisa nem saber***.

****
Escrito no dia da
passagem de vênus entre
o sol e a terra e continuado.











* Com livre inclusão, citação de:

*Oscar Quiroga  |  ** José Paes Lira  |  *** Arnaldo Antunes  |  **** Renato Teixeira

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Depois de grandes a gente viu que o cu de uma formiga é mais importante para a humanidade do que a Bomba Atômica

Manoel de Barros - trecho de Mais novo poema
Fôssemos merecidos de água, de chão, de rãs, de árvores, de brisas e de graças! Nossas palavras não tinham lugar marcado. A gente andava atoamente em nossas origens. Só as pedras sabiam o formato do silêncio. A gente não queria significar, mas só cantar. A gente só queria demais era mudar as feições da natureza. Tipo assim: Hoje eu vi um lagarto lamber as pernas da manhã. Ou tipo assim: Nós vimos uma formiga frondosa ajoelhada na pedra. Aliás, depois de grandes a gente viu que o cu de uma formiga é mais importante para a humanidade do que a Bomba Atômica.